quarta-feira, 16 de junho de 2010

Tentei

nada adianta
nem carinho, nem afeto
nem o amor cuidado e amedrontado
nada adianta
nem que se pinte de preto
nem que beba da mesma água
e coma do mesmo pão
nada adianta
nem o segredo contado
nem o segredo quebrado
nada adianta
nem toda fidelidade do mundo
nada
quando só o que se quer
é ter o que não se tem
lavo as mãos

terça-feira, 15 de junho de 2010


Futebol? futebol não se aprende na escola
No país do futebol o sol nasce para todos mas só brilha para poucos e brilhou pela janela do barraco da favela onde morava esse garoto chamado brazuca
Que não tinha nem comida na panela mas fazia embaixada na canela e deixava a galera maluca
Era novo e já diziam que era o novo pelé
Que fazia o que queria com uma bola no pé
Que cobrava falta bem melhor que o zico e o maradona e quedriblava bem melhor que o mané, pois é
E o brazuca cresceu, despertando o interesse em empresários e a inveja nos otários
Inclusive em seu irmão que tem um poster do romário no armário
Mas joga bola mal pra caralho
O nome dele é zé batalha
E desde pequeno ele trabalha pra ganhar uma migalha que alimenta sua mãe e o seu irmão mais novo
Nenhum dos dois estudou porque não existe educação pro povo no país do futebol
Futebol não se aprende na escola
É por isso que brazuca é bom de bola

Brazuca é bom de bola
Brazuca deita e rola
Zé batalha só trabalha
Zé batalha só se esfola
Brazuca é bom de bola
Brazuca deita e rola
Zé batalha só trabalha
Zé batalha só se esfola
Chega de levar porrada
A canela tá inchada e o juiz não vê
Chega dessa marmelada
A camisa tá suada de tanto correr
Chega de bola quadrada
Essa regra tá errada, vâmo refazer
Chega de levar porrada
A galera tá cansada de perder

No país do futebol quase tudo vai mal
Mas brazuca é bom de bola, já virou profissional
Campeão estadual, campeão brasileiro
Foi jogar na seleção, conheceu o mundo inteiro
E o mundo inteiro conheceu brazuca com a dez
Comandando na meiúca como quem joga sinuca com os pés
Com calma, com classe, sem errar um passe
O que fez com que seu passe também se valorizasse
E hoje ele é o craque mais bem pago da europa
Capitão da seleção, tá lá na copa
Enquanto o seu irmão, zé batalha, e todo o seu povão, a gentalhada favela de onde veio, só trabalha
Suando a camisa, jogado pra escanteio
Tentando construir uma jogada mais bonita do que a grama que carrega na marmita
Contundido de tanto apanhar
Confundido com bandido
Impedido
Pode parar!!
Sem reclamar pra não levar cartão vermelho
Zé batalha sob a mira da metralha de joelhos
Tentando se explicar com um revólver na nuca:
Eu sou trabalhador, sou irmão do brazuca!
Ele reza, prende a respiração
E lá na copa, pênalti a favor da seleção
Bola no lugar, brazuca vai bater
Dedo no gatilho, zé batalha vai morrer
Juiz apitou... tudo como tinha que ser:
Tá lá mais um gol e o brasil é campeão
Tá lá mais um corpo estendido no chão


O país ficou feliz depois daquele gol
Todo mundo satisfeito, todo mundo se abraçou
Muita gente até chorou com a comemoração
Orgulho de viver nesse país campeão
E na favela, no dia seguinte, ninguém trabalha
É o dia de enterrar o que sobrou do zé batalha
Mas não tem ninguém pra carregar o corpo
Nem pra fazer uma oração pelo morto
Tá todo mundo com a bandeira na mão esperando a seleção no aeroporto
É campeão da hipocrisia, da violência, da humilhação
É campeão da ignorância, do desespero, desnutrição
É campeão da covardia e da miséria, corrupção
É campeão do abandono, da fome e da prostituição


Autor: Gabril, o Pensador.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

É necessário poetizar-se

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto


De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

(Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Dica de filme: Vermelho como o céu



Baseado na história real do um renomado editor de son Mirco Mencacci, Rosso Come il Cielo é um filme, também Italiano, que a primeira vista é apenas um drama que não poupa emoções (bem típico dos italianos), no entanto, ele faz agente pensar em como o talento suprime as limitações físicas, e nos faz pensar também como a rotina nos faz tão omissos às coisas maravilhosas que Deus nos proporciona diariamente (como um dia friozinho de chuva, ou uma linda tarde de verão), assim, aconteceu com Mirco, que precisou perder o maravilhoso dom da visão, pra começar a "enxergar" o mundo de forma mais atenta e poética.

Pra não ficar só em minhas palavras, veja o que a crítica diz sobre o filme:

"Emotivo e emocionante, como só o cinema italiano sabe fazer. Assim é Vermelho como o Céu, filme que conta a história real de Mirco (Luca Capriotti), um garoto de dez anos que fica cego num acidente doméstico e é obrigado a freqüentar uma escola especial, longe dos pais e dos antigos colegas.

À primeira vista ? sem trocadilhos ?, o tema da cegueira infantil poderia sugerir um filme melodramático e choroso, mas esse, felizmente, não é o caminho seguido pelo diretor Cristiano Bortone, um cineasta inédito no circuito comercial brasileiro. Pelo contrário: Bortone trata o tema com lirismo e extrai de seu jovem elenco (quase todo formado por crianças realmente cegas) ótimos momentos de bom humor. Como tudo é ambientado na Itália dos anos 70, o sub-tema que permeia a trama é o autoritarismo, aqui travestido na figura do diretor da escola especial, um homem amargo ? ele próprio também cego ? que não acredita nas capacidades produtiva e criativa do deficiente visual. Como se percebe, há várias formas de cegueira.

Numa segunda análise, Vermelho Como o Céu é um filme sobre transições. O protagonista é obrigado a se adaptar ao mundo da escuridão, ao mesmo tempo em que cresce, em todos os sentidos, como pessoa. Enquanto isso, lá fora, a própria Itália é compelida a mudar as leis sobre estudantes deficientes, como o filme explica no final. Também sem querer estragar o final da trama, o destino verídico deste menino, quando adulto, também é dos mais poéticos.

Além de fazer uma belíssima declaração de amor ao cinema, Vermelho Como o Céu resgata a tradição humanista e passional de um tipo de cinema italiano que não tem medo de chorar. Não por acaso, ele foi eleito o melhor filme pelo Júri Popular da 30ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo."

quarta-feira, 12 de maio de 2010

E agora, José?

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, proptesta?
e agora, José?


Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?


E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?


Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?


Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você consasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!


Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?


Carlos Drummond de Andrade